A gestão das Policlínicas Regionais da Bahia, frequentemente apresentada pelo Governo do Estado como referência nacional na regionalização do SUS, passou a ser alvo de questionamentos técnicos que revelam uma falha estrutural na governança do programa. O debate ganhou força dentro da própria rede de saúde e aponta para a necessidade de providências imediatas da Secretaria da Saúde da Bahia (SESAB) e do governador Jerônimo Rodrigues.
O ponto central da controvérsia está na função do Diretor Geral das Policlínicas, responsável pela governança administrativa, técnica e financeira das unidades. Embora atue como representante do Estado no acompanhamento e fiscalização do modelo, o gestor não possui vínculo com o Estado, sendo contratado pelos Consórcios Interfederativos de Saúde — exatamente as estruturas que deveriam ser supervisionadas. O cenário configura uma incompatibilidade institucional que fragiliza o controle e compromete a independência da função.
Atualmente, a Bahia conta com 26 Policlínicas Regionais, que alcançam mais de 99% dos municípios e já ultrapassaram 6,3 milhões de atendimentos. Trata-se de um sistema de grande porte, com elevado volume de recursos públicos e complexidade operacional, que exige mecanismos sólidos de fiscalização e autonomia decisória. No entanto, a estrutura vigente evidencia um descompasso entre o discurso oficial e a realidade administrativa.
Na prática, o modelo cria uma situação em que o principal responsável pela supervisão do programa se encontra subordinado funcionalmente aos próprios Consórcios, o que representa uma contradição técnica, jurídica e administrativa. Esse desenho institucional compromete a efetividade do controle e enfraquece a capacidade de cobrança de metas, avaliação de resultados e implementação de auditorias.
O processo seletivo para o cargo é conduzido pelo Estado e impõe critérios elevados, como formação superior, especialização pela Escola de Saúde Pública da Bahia, experiência comprovada em gestão e aprovação em seleção rigorosa. Ainda assim, após cumprir todas as exigências técnicas, o profissional é submetido a um vínculo que reduz sua autonomia e o expõe a pressões institucionais incompatíveis com a função estratégica que exerce.
Diante desse cenário, cresce a avaliação de que um programa dessa dimensão não pode permanecer apoiado em uma estrutura frágil. A solução defendida dentro da rede é objetiva: o Diretor Geral das Policlínicas deve ter vínculo direto com o Estado, garantindo independência funcional, segurança jurídica e maior capacidade de fiscalização sobre os Consórcios.
Com a expansão das Policlínicas e o aumento do fluxo de recursos envolvidos, a limitação da autonomia do Diretor Geral deixa de ser um detalhe administrativo e passa a representar um risco concreto à governança da saúde pública. O impacto potencial atinge não apenas a gestão das unidades, mas toda a estratégia de regionalização do SUS na Bahia.
Diante das críticas, a responsabilidade recai diretamente sobre o Governo do Estado. Cabe à SESAB e ao governador Jerônimo Rodrigues decidir se irão corrigir a falha estrutural do modelo e fortalecer o programa ou manter uma configuração que pode comprometer sua credibilidade e eficiência. A expectativa é por uma resposta clara e imediata, capaz de preservar a integridade de uma das principais políticas de saúde da Bahia.
